Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

O quarto de JC

Entrei rapidamente no quarto e JC estava lá. Caido no chão. Um aspecto de vagabundo. Não que ele tenha uma aspecto decente com aquele cabelo e aquela barba, mas ele estava imundo. As roupas todas jogadas pelo chão. Lixo espalhado por todo lado. A samambaia toda desfolhada, parecendo o cabelo do cebolinha. E JC lá, pálido, olhando pro teto.

-- JC! Meu filho! O que aconteceu? - Corri e peguei ele nos braços.
-- Estou trancado no quarto há 17 dias... - disse ele numa voz minúscula.
-- Oh, meu filho! O que aconteceu? Estás triste comigo? Teu quarto não te agrada? Não te dou tudo que queres? Não, JC, não... Não precisas responder. Tudo isso é passado. Vamos esquecer tudo... Daqui pra frente seremos uma nova família... Eu te perdôo por você ter se trancado no quarto nessa tentativa de suicíd...
-- EU TER ME TRANCADO NO QUARTO!!!!!! - E JC pulou com uma vitalidade que antes não tinha - EU TER ME TRANCADO NO QUARTO, SEU VEIOFIODAPUTA! CÊ TÁ MALUCO? VOCÊ QUE ME TRANCOU NO QUARTO POR CAUSA DAQUELA MERDA DO MAMUTE, PORRA!
-- Mamute? Que Mamute? Não era um Mastodonte?
-- MASTODONTE, MAMUTE, FODA-SE-PORRA! Você me tranca no quarto por 17 dias, sem água, sem comida, - Porra Pai, eu tive que comer a merda da samambaia!-, sem nem poder ir no banheiro e você ainda me vem com essa merda de "eu te perdôo". Num fode, pai! Enfia essa merda de perdao divino no cu!
-- mas meu filho...
-- SEM ESSA DE MEU FILHO! Um pai não esquece um filho trancado no quarto, de castigo, por 17 dias, caralho! O que cê tem na cabeça, porra!
-- mas...
-- Sem essa de 'mas'! E vai na cozinha e prepara o meu miojo antes que eu morra de fome...
-- Hummm, JC, o miojo não vai rolar... Eu comi o último...
-- Puta... -- JC cai de joelhos, chorando -- Pai, oh Pai, por que fazes isso comigo?!

:: Porra! Como eu ia saber que ele ia querer comer o miojo? Aquela porra passou duas semanas abandonada no armário! Num entendo esse moleque... ::

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008

O quarto de JC

Eram seis e pouco da tarde. Eu estava comendo o meu miojinho quando a campainha tocou...

Era um cara de macacão com uma mala de ferramenta na mão...

-- Boa Noite.
-- Boa Noite. Errr... quem é você? O que cê tá querendo aqui?
-- Chaveiro. Porta trancada.

Bem... com a mesma velocidade e concisão que ele respondeu às minhas perguntas, ele abriu a porta do quarto do JC.

Após agradecer a ele, na forma de um suntuoso cheque, resolvi dedicar-me ao assunto mais importante daquele dia: terminar de comer o meu miojo.

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

O quarto de JC

Tomei coragem e fui até o quarto do JC...

Infelizmente a porta estava trancada. Achei bastante coerente. É o quarto dele, ele trancou a porta.

Já estava voltando pra sala quando pensei: "Que merda! Eu sou pai do menino! Eu não posso ficar adiando as coisas! Ele está trancado no quarto a mais de 15 dias! Eu tenho que entrar e ver o que está acontecendo..."

Voltei pra porta:

-- JC? JC, meu filho? Você está aí?

Não houve resposta...

-- JC, abre a porta que eu quero falar com você, meu filho...

De novo, não houve resposta.

-- Tá bom então, se vc não quer conversar, eu vou embora.

Dessa vez eu ouvi um gemido qualquer...

-- JC! É você? Você tá bem? Fica calmo JC, que eu vou entrar!

Me afastei da porta. Fui até a outra ponta do corredor. Olhei bem para a porta do quarto do JC. Respirei fundo. Peguei o caderninho de telefones e liguei pro chaveiro.

-- Olá! Bom dia, eu estou com uma porta aqui trancada e não consigo abrir. O senhor poderia mandar alguém aqui pra arrombá-la? (pausa) Só no meio da tarde?

Pensei "Caralho, JC está lá a 15 dias. Não tenho a menor ideia do que está acontecendo com ele. Ouvi gemidos. E o cara só pode vir aqui no meio da tarde! Caceta, o que vou fazer?". Pensei um pouco mais e resolvi a situação da melhor maneira possível:

-- Por favor, dá mandar o cara depois da seis? É que tem um filme hoje na sessão da tarde que eu quero ver...

:: Beleza! O problema do JC está adiado por mais algumas horas... Depois eu penso em outra coisa... ::

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

O quarto de JC

Comcei a temer pela saúde de JC...

Há muito ele não sai do quarto. Nem pra comer. Nem pra cagar. Nem pra ver as reprises da última temporada de Os Castores Pirados.

Resolvi tomar uma atitude. Chega de espera. A hora é agora. Não vou deixar pra depois:

Ele tem até sexta pra sair do quarto. Se ele não sair no sábado, no domingo mesmo eu entro lá e vejo o que está acontecendo na segunda-feira.

:: terça no máximo... ::

Domingo, Fevereiro 17, 2008

JC e o Mastodonte

JC arrumou um mastodonte...

Cheguei em casa ontem e tava o moleque lá, jogando video-game e a porra de um mastodonte ocupando metade da minha sala.

-- JC, que merda é essa?
-- Playstation 2. Eu dei porrada e roubei do moleque do 206.
-- Não falei disso...
-- Ah... cê tá falando do Lord Byron.
-- Lord Byron? Porra, isso é nome de Mastodonte?
-- Ele é meu eu chamo ele do que eu quiser...

Resolvi ignorar o problema. Fui pro meu quarto, tomei meu banho e quando voltei, o Mastodonte ainda tava lá, no meio da minha sala e o JC ainda com a porra do Playstation 2.

-- JC, onde você arranjou essa porra?
-- Já falei. Roubei do moleque do 206...
-- numfode, JC. Tô falande do Mastodonte.
-- Idade de Bronze... América do Norte... Porra, você cria esses bichos e não presta mais atenção neles?
-- JC!!! Essa porra já tá extinta!!! Porque que cê trouxe essa merda de Mamute pra casa?
-- Mamute não!! É um Mastodonte, pai! Um Mastodonte! Prestenção, ô...
-- JC, caralho, como é que cê trouxe essa merda pra dentro de casa?
-- Eu peguei o elevador de serviço.
-- putaquepariu!!! Cê sabe que o condomínio não deixa ter bicho em casa! Se ele me mandarem uma multa por causa desse Mamute, tu tá fudido, JC!
-- Mastodonte, caralho, Mastodonte!!!! E ninguém sabe que Lord Byron está aqui...
-- Claro que vão descobrir, moleque! Essa merda fede pra caralho! Daqui a pouco os vizinhos vão começar a reclamar...
-- Porra pai, eu dou banho nele e...
-- Dá banho nada... Puta, já vi tudo... Eu tendo que descer de manhã com essa porra de Mastodonte escondido numa sacola e depois levar essa merda pra passear no calçadão...
-- Eu vou cuidar dele, véio, deixa ele ficar...
-- De forma nenhuma! Devolve essa merda pra família dele agora...
-- Num dá pai. A família dele morreu...
-- Morreu? Como assim morreu?
-- Morreu por causa daquela aposta idiota de jogar o asteróide na terra...
-- putaquepariu... Joga essa merda no vaso.
-- Pai!!!! Caralho!!!
-- Joga ele no vaso agora!
-- Ele é um ser vivo! Eu não vou jogar ele no vaso!
-- Porra, você jogou o hamster quando ele morreu!
-- Era uma hamster, Pai! Não era um Mamute! E tava morto!
-- Ué? Não era Mastodonte?
-- é, caralho. O senhor tá me enrolando...
-- Me enrolando tá você... Pega essa merda de Lord Byron e joga na privada agora!
-- Não! Num vou fazer isso, véiofiodaputa!
-- Não vai fazer? Não vai fazer, é? Então adivinha quem vai pra privada? Me dá essa porra de video-game. O playstation vai pra privada...
-- Num fode véio! O Playstation não!! Eu jogo o Lord Byron! Mas deixa o Playstation...
-- Tudo bem. Joga ele fora AGORA.

JC levou o mastodonte pro banheiro. Ouvi uma breve despedida, algumas lágrimas e depois o barulho da descarga.

Silêncio...

Depois o barulho da descarga.

Depois o barulho da descarga, novamente.

-- Pai!!! Oh, Pai!!! A merda da privada entupiu de novo!

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

Debaixo da cama de JC

Assim que cheguei em casa, depois da minha caminhada matinal pelo calçadão, fui no quarto do JC. Tava trancado. Mas nada que um pé-de-cabra não resolvesse. O quarto dele tava a maior zona. Fui direto investigar debaixo da cama dele. No meio de centenas de meias sujas e cuecas usadas, encontrei uma caixa de sapatos preta cheia de adesivos escritos "Só Jesus Salva". Fui pra sala e fiquei esperando o moleque chegar pra colocar ele contra a parede e descobrir que parada era aquela.

JC chegou lá pelas 3 da manhã. Cara inchada, olhos vermelhos, fedia como um gambá bêbado...

-- JC, senta aí que a gente tem uma coisa séria pra falar...
-- hummm véio, sentar, sentar eu não posso...
-- Tudo bem, tudo bem... Só quero saber que caixa é aquela em baixo da sua cama?

JC gelou. Tremeu todinho e respondeu meio gaguejando:

-- Pô pai, sabe como é... um amigo meu começou a me falar dessas paradas... tipo assim, que iam me aliviar, abrir horizontes, sabe... as coisas aqui em casa, sabe, entre a gente, tá entendendo?, não tavam legal, aí, tipo assim, topei, só pra experimentar, sabe...
-- JC? De que cê tá falando? Não tô entendendo nada...
-- ??? O Senhor não tá falando do conteúdo daquela caixinha de charutos ?
-- Caixinha de charutos? Não, eu não sei de porra de caixa de charutos nenhuma...
-- ahhhh,bem...De qualquer forma, pai, o conteúdo da outra caixa merece uma explicação...
-- Pode começar... Tô esperando uma boa explicação práquilo...
-- Sabe, véio, acho que a falta de uma figura materna, aqui em casa, me abalou... E a pressão do senhor, sabe, a figura do pai de todos sempre sobre mim, entende.. essa coisas acabaram influenciando na minha sexualidade, entende...
-- Caralho, JC! Que porra de sexualidade que cê tá falando!!! Eu quero saber daquela porra de caixa preta cheia de adesivos falsificados!!!
-- ??? O senhor não tá falando daquela caixinha de biscoito, com aquelas fotos de homens lambuzados de betume?
-- Que porra de caixinha de biscoito? Enfia as porras das fotos no cu, JC! Eu tô falando de você ficar vendendo essas merdas de adesivos falsificados nas minhas costas! Que merda que tá rolando???
-- ah, pai, porra!!! Nunfode! Vaitomarnocu! O Senhor só pensa no senhor e nessa porra de universo! Você nunca presta atenção em mim!

JC foi pro quarto, pegou a caixa de adesivos, voltou e jogou ela em mim com um sonoro "enfianocuveiofiodaputa".

Achei tudo muito estranho...Não entendi metade das coisas que JC tava falando... Mas pelo menos acho que ele vai parar com essa coisa de se trancar no quarto e de vender adesivo falsificado.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Almoço de Domingo

Tava eu lá, tranquilinho, meu sofazinho, meu jornalzinho, meu chinelinho predileto. Tudo na mais tranquila paz. De vez em quando eu observava as sombras que passavam pelo corredor do prédio, por baixo da porta da sala, só pra ter certeza que nenhum porteiro maluco iria tentar me matar naquela tarde. Tava tudo traquilo, até que JC aparecer na sala:

-- Véio... tenho uma parada pra pedir pro senhor.
-- humm...
-- Eu queria que o almoço do domingo de páscoa fosse lá na casa da mãe.
-- Que isso JC! Tá maluco?
-- Porra pai! A gente nunca almoça junto! Eu queria ter um almoço de família nesse ano...
-- Tudo bem... você vai lá e almoça com tua mãe, mas não me coloca nessa furada, não!
-- Caralho, pai! Que que cê tem contra minha mãe! Por que vocês nunca ficam juntos! Eu nunca vi você fazendo um agrado pra ela!
-- Porra JC! Você quer o quê? Eu só vi essa mulher uma vez na vida! Você quer que eu fique de namorico com ela? Eu mal a conheço!!!
-- Masporrapai! Só quero que a gente almoce junto, converse um pouco, essas coisas de família...
-- Mas, JC, ela não é minha família! Que assunto que eu vou ter com essa mulézinha!!!
-- MULEZINHA NÃO!!!! RESPEITO QUE ELA É MINHA MÃE!
-- Tua mãe, mãe de todos... sei lá, ela só não é nada minha... E não me venha mais com essa merda de história de almoço de páscoa... Onde já se viu... Eu ir almoçar com uma mulher que só vi uma vez só para comemorar o dia em que pregraram meu filho numa cruz...
-- PORRAPAI! Não é nada disso! É Pra comemorar o dia em que eu Ressucitei dos Mortos, porra!
-- Ressucitar dos mortos, ser pregado numa cruz... grandes porra...
-- Ah, pai, numfode...- JC foi pro quarto resmungando - Foda... você não presta atenção em nada que eu faço...